Esta é a série que abordará algumas canções que me reportam, me levam, me transportam até dias, imagens, passagens que, também por elas, nunca poderei me esquecer. Começa aqui e divide espaço com a programação normal, e com a série sobre fotos, também.
George Harrison - That Is All
Youtube dela: http://www.youtube.com/watch?v=fY3ZvRfMcU0
Se não tive a ventura de viver com meu pai, tive tios lindos pra compensar. O Marcílio, o "Formigão", é o único que se foi, e ele é pai do meu parceirinho de blog.
Não há como ver uma corrida de Fórmula 1 e não se sentar no sofá como se fosse ele. Beatles era sua paixão, e seu inglês era cheio de um sotaque próprio.
Lembro que, depois de muito tempo, falei com ele ao telefone, no dia que o George Harrison morreu. E acho que o assunto era esse mesmo. Harrison era seu preferido, eu acho. Ao menos os dois amavam Fórmula 1.
Esse tio tinha um vozeirão que preenchia a casa. Quando se separou da mulher que amou, perdemos seu convívio. E a história da canção se passa antes de ele morrer, bem antes, na verdade. Eu tinha uns 16, ou 17 anos, não posso precisar.
De vez em quando ouvia música com os vinis na sala. Coloquei esse disco, gostava de umas baladas. Estava tocando essa música, que devia ser a última de um dos lados. E meu outro tio, o Feu, chegou em casa.
Este tio sempre morou comigo, mas sua voz não é tão grave, ele não é assim expansivo. Eu estava distraído mas ele se ateve à música. "Caralho, essa é a música do Formigão", disse ele. E apoiou uma das mãos na mesa de jantar.
Foi a primeira vez que vi meu tio chorar. Discreto, como ele sabe ser. Foi a primeira vez que me dei conta da falta que um parente pode nos fazer em vida.
Porque ele morreu depois, como minha vó e meu vô também já tinham morrido. E não ter recursos para ir contra isso pode ser mais leve. Fiquei pensando que aquela cabeça chorava de uma saudade de dor diferente.
Uma estrada, por mais longa que seja, ou mesmo um oceano inteiro, nos parece, estupidamente, muito mais perto do que a distância entre quem ficou e quem partiu, entre chão e além.
Fiquei no meio de uma canção devastadoramente linda, e um peito saudoso de adulto. Eu era um menino. Mas até hoje me arrepio só de ouvir o primeiro acorde desta.
terça-feira, 28 de julho de 2009
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