quinta-feira, 16 de julho de 2009

As Fotos de Minha Vida - 1

Começa aqui uma nova série. Fotos de minha vida. Pensei nisso quando peguei uma foto que não sabia que existia.

E que é esta da abertura.

De sentido forte, pesado, até. A série vai abordar momentos dos mais distintos. E, como em outras séries já feitas, tentará ser absolutamente sincera e vulnerável.

Pois vai retratar momentos, e não o presente. São retratos, afinal de contas.

Não sabia, e não a vi sendo tirada. Trata-se do fim do Carnaval de 2009, ápice do meu trabalho, cujo qual esperava por todo o ano. Me recordo perfeitamente desse momento. De ter encostado nessa grade. Minha canela e pés estavam molhados. Eu, exausto, em erupção.

Meu cabelo começava a crescer. Eu o havia raspado, quando uma sucessão de coisas invadiram minha cabeça - o cabelo, que tanto me apego, pagou o pato -, e eu desesperei. Resumidamente, num período curto de tempo, minha vida estava normal, e tornou-se ideal, e desabou para o mais caótico patamar.

Nos 5 meses entre hoje e esta foto, já cresci uns 15 anos, então já estou maduro pra escrever sobre isso sem fricotes e coitadices: eu tinha perdido minha noiva.

Foi duro, é óbvio. Deus sabe de minhas noites no hotel em que ficava confinado nos dias do Rei Momo. Foi a única vez na vida que, admito envergonhado, pensei concretamente em acabar com tudo. O carnaval não me deixou respirar. Trabalhei vertendo lágrimas.

E não era só isso.

Era o meu último carnaval como assessor de imprensa. Precisava de algo maior, pela vida que projetava, pra ter dinheiro, pra apostar, correr um risco. Era a hora certa. mas alí, na avenida vazia depois da última escola de samba, eu senti o vazio.

Fui buscar minha mochila na sala de imprensa, e, voltando, parei onde estou na imagem. Alí é o camarote. Onde tanto trabalhei, tão sujo e com pessoas felizes, entre elas mamãe, mas eu não queria entrar lá e tomar meu merecido chopp. Foi um tsunami, a seco.

Sabia que ia me demitir nos dias seguintes. As obrigações saíram de minha frente. E não havia mais nada. Não era capaz de imaginar como seria chegar em casa depois de 6 dias. Em 6 dias, violentei um banheiro de hotel, fui covarde e agredi um sujeito comum, e ninguém ficou sabendo.

De lá pra cá, aprendi a dobrar os joelhos, pra pedir paz interior, e, se desse, pras coisas ficarem parecidas com o que eram. Tomei um porre de cair - e caí - , chorei de rolar na calçada debaixo de um dilúvio, e ninguém soube. Viajei, comprei uma coisa que sonhava, descansei sem culpa, e o tempo foi passando. O cabelo crescia e eu não punha a mão. Duvidei do jornalismo, como duvidei de mim mesmo.

E, depois de tudo, é que fui descobrir essa foto. Foi um arrepio. Esse momento é daqueles em que há um "rec" na mente. Eu estava desolado, na verdade. Mas orgulhoso de não ter deixado ninguém na mão.

Eu tinha sobrevivido. Só não sabia o que iria ser dalí pra frente. De certa forma, ainda não sei. Mas naquele momento, eu só conseguia pensar que a minha vida, depois que eu me descolasse daquela grade, não seria mais da forma como eu a conhecia.

Como, de fato, não foi.

É a imagem do fim da época mais legal da minha vida.

Um comentário:

  1. Ler teu texto, depois de ter te lido nesses dias e fatos que "ninguém soube", me põe a alma comovida. Tenho acompanhado passos, palavras confidenciadas, torcidas compartilhadas e desejos infinitamente maiores meus do que teus... Já te disse, e repito, que te admiro e respeito muito mais hoje, pela humanidade também dividida, do que antes. Antes desses pés ensopados, dessa grade-bengala pra ti, dessa tristeza que adotaste como legítima e, na verdade, nem identidade tem. Vi essa foto outra noite, como uma das fotos da tua vida. Torço, e muito, para que venham outras muito mais coloridas, muito menos doloridas, muito mais cheias de ti. Basta um flash para que se tenha um insight.

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