quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mensageiro

Foi pela TV que fui lembrado de uma dessas coisas que a gente costuma forçar-se a esquecer. Uma dessas coisas que não estão ao nosso alcance, que não podemos resolver e, até por isso, não agimos com a intensidade justa para consternante fato.

Uma reportagem da TV Globo mostrava uma complicada cidade no interior de Goiás. O nome dela não precisa ser dita, até porque outras muitas passam pelo mesmo problema da pequena Cavalcante, isso é, Cavalcante foi mostrada apenas como um exemplo de uma realidade cuja qual todos conhecem: não temos as mínimas condições de educação.

Em um quadro onde até a merenda é resultado de sacrifícios pujantes, onde o professor é um abnegado que não pode entregar garantias de que está ensinando as coisas corretas da forma correta, temos, logo de cara, na matéria, a informação estatística de que 40% da população de lá é analfabeta.

Em algumas cidades o número é ainda maior, sabemos disso. E lembre do analfabetismo funcional, isso é, o rapaz que sabe ler mas não sabe interpretar ou formular suas próprias textualizações. O analfabetismo funcional é enorme no Brasil, até mesmo na capital de São Paulo. Você consegue, então, imaginar o tamanho do analfabetismo em Cavalcante, Goiás? Eu deduzo que, de cada 10 adultos, 7 não podem ser abordados com textos, jornais, publicidade escrita. 40% são analfabetos, e 30% são funcionalmente analfabetos.

Para esses, é preciso, para que se consiga uma boa comunicação, falar. A palavra que sai da boca é a que se entende, mesmo que nem tão bem asism. É claro que você não vai, não pode, não consegue falar com os moradores de Cavalcante indo de casa em casa. Portanto, estamos falando de um território cuja informação em massa é inviável.

Ou melhor, inviável em termos pessoais. Lugares como cavalcante Costumam possuir muitas igrejas. O homem tem necessidade de comunicação em grupo. Eis uma opção, em carne, osso e milagres, na frente deles, com substância. Lugares como Cavalcante, onde os moradores não recebem informantes batendo de porta-em-porta, possuem, enfim, um único e grandioso meio de comunicação uniforme: a televisão. A Tv fala, isso é tudo.

Daí você consegue deduzir a importância de um jornalismo compromissado na telinha, o que não é o normal em empresas vinculadas a igrejas ou a Brasília. Você consegue imaginar a força de um horário político na decisão desse território, e pesa de forma diferente o fato de esse horário político ser simplesmente risível, enquadrado em regras inomináveis de distorção democrática. Daí você enxerga a grandeza do Jornal Nacional, do Big Brother, do Sílvio Santos. É o jornal, o mapa, o messias e a filosofia que o morador de Cavalcante tem ao seu alcance, seu curto e analfabeto alcance. De forma que até o culto, até o professor, em Cavalcante, não tem muita força - nem carismática nem física - de ir contra.

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