quinta-feira, 19 de março de 2009

Revanches

“O amor pode nos matar, pode nos separar, mas se tivermos sorte pode nos reaproximar. Às vezes o amor é inesperado e imprevisível, e às vezes você só tem que entrar com o coração. E torcer para dar certo”. (Kevin Arnold)

Há quem enxergue no verdadeiro amor a gratuidade, a generosidade, a característica de não ter dedos, de modo a não poder fechar as mãos para agarrar, ou esmurrar, ninguém. Sem substâncias, sem temperos, sem palpites. Um amor "vão", como já diria Gilberto Gil.

Ser vão não é o mesmo que ser em vão. Dormir 15 horas no sábado também vale a pena, mesmo que não seja uma necessidade acordar descansado no domingo. Ser vão é ser vazado, transparente, não alterar a paisagem. Ou mesmo ser inexistente, fabuloso, romântico de graça.

Um amor vão é humilde por isso, por ser impotente, no fim das contas. Os humildes gostariam de ser impotentes nessa medida, meros expectadores, torcedores de si.

Torcer é propor-se. É como votar no candidato que, por ventura, pode perder. Quem torce, e quem vota, torna legítimo, reconhece a existência dos lados opostos. E por reconhecer, deve aceitar a chance de estar do lado errado. Isso é jogo, e quem torce, joga mais que qualquer um.

Joga mais que todos, porque quem torce não tem cédula de votação, nem fichas de pôquer, nem nada material, nada tangível. Quem torce usa o coração e só, e mostra isso com a voz, com os olhos, com o corpo. Nada é mais visceral que a torcida por algo.

Daí o poder que a reza tem de alçar uma pessoa ao firmamento. Todos torcemos por algumas coisas das quais sequer podemos explicar. Torcer é ter fé, e são muitos que se equivocam nesse caminho. Porque não admitem o "insucesso" de terem acreditado em algo que se mostrou ter sido, para eles, em vão.

Estes tinham uma crença absoluta, que nunca saberia mesmo a hora de perder. Querem encher a própria crença como se enche um carrinho de mercado, e ignoram que o que é vão nada leva, nada entrega, pois é, por definição e missão, vazio. Esqueçam o colar de ouro, posto que o coração não tem pescoço.

Acabam dormindo melhor aqueles que assimilam que todo sacrifício não garante nenhum passo a mais em relação ao sujeito inerte que, um dia, tomou um golpe da sorte. Não há regras, nem reembolso. É um jogo. Pode estender-se infinito como um imenso monolito. Pode acabar agora.

Mas o tempo pouco importa. Importa o resultado. Afinal o que está na mesa é o seu coração. E o coração não se propõe a revanches.

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