quinta-feira, 23 de abril de 2009

Drinques

“Eu queria ter ficado lá naquela noite, mais do que qualquer coisa que eu já houvesse desejado. Mas eu sabia que não podia. Eu tinha 15 anos, eu dormia debaixo de um teto que era de meu pai, numa cama que ele havia comprado. Nada era meu, exceto meu coração, meus temores, e minha consciência de que a partir de então, nem todos os caminhos me levariam de volta pra casa”. [Kein Arnold]

Já é tecla batida, não gosto de minha cidade. Muito menos do bairro e do prédio onde eu moro. Ainda menos da porta do meu quarto, que é fina e todos ouvem o que falo e choro, e é toda rabiscada por gente que um dia escreveu pra mim e hoje talvez já não escreveria. Cada dia piora. Absolutamente tudo tem sombras, lembranças, dentro e fora de casa e de mim.

Ainda assim, quando eu fecho a porta, estou pronto pra qualquer coisa que seja só minha, tenho a autonomia, o sono e os sonhos que mereço. Encaro. E caio na real, como também mereço. Não importa o quanto eu me estresse, ao fechar a porta os bons gestos vem à tona. Não importa o quanto eu despiste, quando eu fecho a porta não posso fugir de algumas lembranças.

Meu avô, quando viúvo, quis morar na praia até morrer. Meu pai, quando separado, morou na rua, rodou o país até morrer. Nossa relação com o espaço físico está bastante ligada com o espaço sentimental. Meu tio, quando solteiro, buscou se libertar da saudade, foi parar no Paraná, onde ficou até morrer. Tenho a história de uma paranaense que, sem o namorado, fugiu pra São Paulo, onde tentou se libertar até morrer.

Seria seguro ficar no quarto. Não é mentira dizer que um homem triste leva sua tristeza consigo até pra Lua, se para lá ele for. O homem triste tampouco pensa que achará a felicidade na Lua ou mais perto de casa que isso. Cada homem triste, é triste à sua maneira. Mas provocar alguns desapegos é a maneira que a tristeza tem de tornar-se útil.

Há uma relação nova com a coragem, quando a porrada relativiza o tamanho das coisas, das casas, dos mapas. Nossos medos ganham proporções práticas. Passa a ser importante contemplar o risco, entendê-lo. Rechaçar vontades, coisas seguras. O frio-na-barriga é na pele, é físico. É bonito, é o coração finalmente tratado como o rei. Mas é, muitas vezes, trecho de alguma história de dor.

E a dor é sempre trecho de uma história maior. Que costuma ter desdobramentos inesperados, não-lineares. Assim como nossos passos deixam de seguir, viciados, pra casa, quando, em alguma altura, aprendemos a beber um drinque sozinhos.

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