Houve um tempo de minha vida em que não adquiri simplesmente nenhuma calça nova. Quase nenhuma meia, uma ou outra cueca. Um tempo em que não adquiri nenhum hábito realmente novo, não contraí vício por nenuma banda ou bebida nova - e olha que minha banda preferida acabou-se nessa época.
Nesse tempo, lí muito menos do que lia antes, e antes eu era um universitário preocupado em fazer tudo que desse tempo. Quem lê pouco, escreve pouco. Não foi propriamente uma parada no tempo, uma época congelada, mas por um período eu acreditei nessa coisa de ser bacana.
Ser bom de coração, ser simples e tal, relaxar diante da vida. É gostoso, é como parar pra tomar um ar antes de chegar no topo da montanha (eu nunca estive no topo de nenhuma montanha, ok, Cristo). Mas engana um pouco, se eu pudesse dar conselho a algum miúdo, diria pra nunca acreditar em ser um cara bacana, porque a gente é um animal estranho e tem "conceitos", e o conceito do que você é nunca é claro.
O miúdo gurí merece descobrir suas verdades sozinho, ficarei quieto. Mas não é um caso de pessimismo. É um alerta. Quando "você é você mesmo" (que paradoxo...), você só tem um tempo, um espaço, uma referência: você. E ninguém gosta tanto de você assim. Participar das coisas saindo da figura personal é generoso e necessário.
Conselho até pra gente adulta: apostas, com seu coração, não. Antecipe-se. Dê suas reboladinhas, atenha-se a atividades periféricas, antes que suas cuecas envelheçam. Porque no mundo essas coisas se invertem, o quão bacana você é deixa de ser visível quando é preciso estar lendo um livro novo e ouvindo uma banda nova. Quando é preciso mudar alguns hábitos e tomar atitudes que não venham do coração (crescer é isso, afinal, e só sua mãe te quer criança pra sempre).
Coração não é prefácio, não é cartão de visita. É intimidade, é vinho, é momento nobre. Houve um tempo em minha vida que parece intacto. Um tempo em que ao invés de comprar meias, dirigir um carro, me pós-graduar, eu fiquei dialogando com meu coração, prometendo a ele coisas que eu nunca soube, coisas que eu perdi, e coisas das quais eu nunca vou me acostumar em não ter.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
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